A ocorrência de um "Ano sem Verão" há 200 anos atrás poderá ter estado na origem da bicicleta. Curioso? Então é assim. Em 1816 sucedeu um dos maiores fenómenos de arrefecimento global conhecido pelo "Ano sem Verão”. Essa anormalidade climatérica surgiu devido à brutal erupção do vulcão Tambora, na Indonésia, que produziu uma significativa descida da temperatura nos meses de Verão, com neve e gelo a assolar muitas regiões da América do Norte e Europa. Em resultado dessa intempérie, houve grandes perdas na produção agrícola e animal. Um dos efeitos colaterais foi a redução do número de cavalos, seja por consequência direta do mau tempo ou indirecta pelo aumento do preço da aveia, o que conduziu a perturbações na actividade do transporte de passageiros. Há quem diga que tal constrangimento na mobilidade das cidades – e a antecipação dos riscos da dependência dos equinos - terá impulsionado o Barão Karl von Drais a criar (ou a aperfeiçoar) em Manhein, na Alemanha, a primeira geração de bicicletas que apresentou publicamente um ano depois em Paris. Não deixa de ser irónico que, dois séculos volvidos, estejamos novamente assustados com as mudanças climáticas, preocupados com a mobilidade nas cidades e a dependência de um modo de transporte (igualmente movido a cavalos) e a olhar para a bicicleta como parte da resposta a esses problemas. A história mostra-nos que, muitas vezes, não é preciso inventar a roda. Só precisamos de a usar de modo inteligente. Bom ano de 2016!
A conferência Velo-City juntou este ano em Nantes mais de 1.600 participantes de cerca de 60 países. É um pequeno continente de activistas, cientistas, políticos e empresários que se forma durante quatro dias para falar de bicicletas e, este ano, da forma como estas podem ajudar a construir um futuro melhor («cycling: future makers»).
A sessão de abertura, normalmente excessivamente protocolar, teve alguns discursos marcantes. Do conjunto retive o apelo para que as conversas dos próximos dias não se centrem na bicicleta, mas nas cidades que queremos ter e nas necessidades dos seus cidadãos. Um apelo oportuno para que as conclusões possam chegar aos 91% de pessoas que na Europa não andam de bicicleta.
Das intervenções do primeiro dia, das quais destaco a dos autarcas de Rennes, Estrasburgo e Nantes, municípios franceses referência nesta matéria, registo as seguintes três sugestões de aposta. A necessidade de cidades e bairros de proximidade que reduzam as deslocações entre casa, trabalho e serviços, oferecendo aos seus utilizadores mais densidade, massa crítica e tempo. Também foi proposto a aposta num espaço público qualificado visando reduzir a velocidade, aumentando a partilha do espaço pelos diferentes modos de transporte e a segurança para os mais frágeis. Por último, foi recomendada a criação de multi-serviços de apoio aos ciclistas centrandos na procura das condições para ultrapassar os obstáculos básicos que impedem a mudança de modo de transporte, nomeadamente o estacionamento seguro (no espaço público, edifícios actuais e futuros), a manutenção da bicicleta, o apoio à deslocação (através das tecnologias) e as entrega de compras e pequenos volumes ao domicílio.
Do ponto de vista metodológico, também três medidas. Fixar objectivos razoáveis para a quota modal da bicicleta e medir regularmente o impacto das medidas. Envolver as comunidades na concepção e implementação das propostas, nomeadamente através de novas figuras institucionais (como os conselhos de utilizadores de espaço público recentemente criado em Nantes - ver exemplo). Após resolvidos os principais problemas do centro da cidade, iniciar iniciativas semelhantes nos territórios mais periféricos, garantindo um maior equilíbrio espacial nas intervenções e preocupação.
Está aqui uma boa agenda para os municípios portugueses.
A função mais nobre de uma academia é contribuir para melhorar a vida de quem dela faz parte, oferecendo competências, abrindo horizontes e fortalecendo os laços que unem os seus membros e a comunidade. Há, naturalmente, diferentes formas de contribuir para essa melhoria. O conjunto de iniciativas pela promoção do uso da bicicleta que a Associação Académica da Universidade de Aveiro, Universidade de Aveiro, Município de Aveiro, Polícia Segurança Pública ,FORUM ESTUDANTE e Ciclaveiro levaram a cabo esta semana é uma delas. Este caminho conjunto feito de diálogo, pedagogia, colaboração, solidariedade e diversão é muito rico e inspirador. É toda uma «nova vida» construída pelas nossas mãos!
Temos o país em risco. 4 milhões de automóveis produzem diariamente mais de 60% das deslocações, 3x mais do que tínhamos há 20 anos, uma parte delas de curta duração. Andamos menos a pé (16%, menos 55% que em 1991) e de transporte colectivo (17%, menos 1/3 em igual período). Ao mesmo tempo, 1 milhão de adultos e 15% das crianças entre 6 e 9 anos são obesos. Mas não só. 3,5 milhões de adultos e 1/3 das crianças entre 6 e 9 anos têm excesso de peso. Temos cidades e cidadãos em risco cardiovascular, com consequências conhecidas.
A bicicleta enquanto modo de deslocação diário tem alguma expressão em certas zonas do país (sobretudo no Baixo Vouga, mas também no Baixo Mondego, Pinhal Litoral e Algarve), sobretudo nas deslocações para a escola e também trabalho. Mas tem expressão residual a nível nacional (0.5%).
Mas algo está a mudar. Em 2012 venderam-se mais bicicletas que automóveis (113.408 automóveis e 350.000 bicicletas). E exportamos 200 milhões de euros de bicicletas (o Paulo Rodrigues da ABIMOTA lembra que isto é um pouco menos de metade da cortiça). Somos o 5.º maior produtor de acessórios e o 7.º de bicicletas na Europa.
Para além dos 30.000 utilizadores regulares, mais de 100.000 pessoas praticam desporto em bicicleta. E alguns usam-na em passeios de fim-de-semana e em férias.
A bicicleta pode ajudar a tratar da saúde das nossas cidades, da nossa economia, da nossa saúde. Talvez não seja preciso inventar a roda, mas podemos encontrar a mudança certa. E cada um de nós pode fazer algo por isso!