China Thinking About Building a Train That Reaches America
«Quando chegou a Coimbra não era já o caloiro ingénuo, o filhinho família pois já estivera fora de casa em Santarém e em Aveiro onde fizera o Liceu.
Estava preparado para a luta e para enfrentar o futuro.
Com escassa mesada, queria gozar sem ser pesado à família.
Qual seria o melhor caminho?
A Tuna Académica e o Orfeon proporcionavam aos componentes excursões aliciantes, tratou logo de candidatar-se a Tuno e Orfeonista.
Simultaneamente começou a frequentar o Grupo Dramático.
Em Aveiro fora protagonista do célebre Pangloss – um turista estrangeiro que vinha apreciar e criticar o que de bom e mau havia na cidade, na revista “Pangloss em Aveiro”.
Fácil lhe foi conseguir o difícil e pouco apetecido papel de “Pantaleão”, o proprietário de uma república de estudantes que ao vir receber as rendas muito atrasadas acaba por ceder dinheiro à malta.
Tão bem se houve que ganhou o cognome “Pantaleão” por que passou a ser conhecido.
Continuava a assistir aos ensaios da Tuna e Orfeon.
Chegou a altura do exame de apuramento de novos elementos.
No Orfeon acharam a sua voz fora dos 4 naipes necessários – Reprovação.
Na Tuna, embora tivesse tomado a precaução de escrever o nome das notas na música não foi suficiente para convencer o examinador de que os seus conhecimentos de viola serviam para mais do que para acompanhar uma serenata em noites luarentas e mornas de Primavera.
Ei-lo pois fora da Tuna e do Orfeon e desfeito o sonho de participar na excursão que se avizinhava e nas outras que se seguiriam… mas nem tudo estava perdido… na impossibilidade de à última hora angariarem substituto para o teatro, em vésperas de excursão, ficou nomeado sem discrepâncias sócio honorário das duas colectividades e participou nas excursões mais variadas pelo Continente, Açores, Espanha, Brasil, etc.
>
Passado tempo tomou-se uma resolução ousada, ir ao Brasil visitar a Colónia Portuguesa saudosa da Pátria e ansiosa por através dos rapazes da Briosa, matarem saudades do país distante, mas não esquecido.
A despesa era muita, o dinheiro pouco, conseguiram que a Companhia de Navegação lhes improvisasse uma classe intermediária, 3ª encapotada, e com magros subsídios abalançaram-se à partida.
Entretanto o Pantaleão era posto perante rude prova. Ir era um sonho, um desejo ávido, mas era um [sonho?] perdido pela certa com as repercussões inerentes, o maior sacrifício da mãe viúva que vivia para o seu último filho.
Que fazer?
Horas e horas hesitou ouvindo os conselhos prudentes de um amigo.
É aí que entra a lenda…
Foi então que começou a dizer-se que a mãe aflita pela longa viagem marítima lhe pedia que renunciasse à ida e que ele lhe telegrafara que com um subsídio extra, lhe prometia ir de comboio».
(...)
Lembrei-me desta magnífíca história do «Pantaleão» quando li a notícia de que «China Is Reportedly Thinking About Building a Bullet Train That Reaches America» um longo percurso de «13,000 km of high-speed railway that crosses from China to Russia and North America and includes a 200-km tunnel under the Bering Strait».
Nada originais, estes chineses!
(...)
(...)
«E foi ao Brasil onde com os outros viveu dias inesquecíveis, acarinhados, acompanhados pelos brasileiros e portugueses que nada lhes deixavam gastar e os cumulavam de presentes e agrados
Viagem triunfal, digressão sempre ovacionada e comparticipada, regiamente remunerada; tanto que regressaram em 1ª classe num luxuoso paquete estrangeiro e, com as sobras, ainda contribuíram para a construção do Jardim Infantil João de Deus.
O amigo prudente que não foi ao Brasil também chumbou…»
ANAgráfica, Coimbra 2005
(escrito e coligido pela minha Tia Ana e minha Avó Zezinha; sobre meu Avô Henrique Pereira da Mota)
